Aplausos no fim do curso não são evidência de que a avaliação de treinamento funcionou; são educação. E o RH que só colhe aplausos está dirigindo sem painel. No Sabor Central O treinamento de atendimento das equipes de balcão do Sabor Central, empresa de refeições coletivas, terminou em aplausos sinceros. O instrutor contratado era ótimo de palco, o formulário de saída deu 9,4 e o RH arquivou o projeto na pasta dos sucessos. Três meses depois, Paula, a nutricionista-chefe, cruzou o formulário com o painel dos refeitórios e trouxe o incômodo para a reunião: as notas de atendimento dadas pelos comensais não tinham se movido um milímetro. Nem as reclamações de má vontade no balcão, nem os elogios nominais. Nada. — "A gente mediu se as equipes gostaram do show. Em nenhum momento medimos se alguém passou a atender diferente. O 9,4 é nota do quê, exatamente?" O silêncio na sala respondeu antes do RH: era nota do instrutor. Do treinamento, ninguém sabia. O problema que vai além do treinamento Todo treinamento corporativo termina com a mesma pergunta implícita: como saber se funcionou? "O pessoal gostou" não basta. Isso é apenas o primeiro degrau da escada de evidência, colhido com viés de gentileza, de quem acabou de viver a experiência e ainda não teve chance de aplicar nada. Mas o problema vai além de qualquer treinamento isolado. Avaliar treinamento é um problema de pesquisa como outro qualquer. E treinamento é só o caso mais visível de uma família inteira: o onboarding que o RH redesenhou, o benefício que mudou, a nova escala de trabalho, o programa de liderança. Toda ação de RH é uma aposta de que algo vai melhorar. E aposta, se testa, não paga pra ver. A boa notícia é que o instrumental para testar já existe: questionário bem desenhado, coleta no momento certo, leitura honesta — o mesmo método usado para medir a experiência do cliente, aplicado agora para dentro. Os quatro níveis de Kirkpatrick Em 1959, Donald Kirkpatrick, então professor da Universidade de Wisconsin, propôs avaliar treinamentos em quatro níveis sucessivos, um modelo tão duradouro que segue sendo o padrão da indústria de T&D: Nível 1 (Reação): eles gostaram?A pesquisa de satisfação do treinamento: relevância percebida, clareza, formato. É o nível mais fácil de medir e o mais fraco como evidência: a literatura de T&D mostra correlação baixa entre "gostar do curso" e "aprender com o curso". Um treinamento pode ser divertidíssimo e vazio; outro, árido e transformador. Serve para: melhorar o material e o formato. Não serve para: declarar vitória. Nível 2 (Aprendizado): eles saíram sabendo?Conhecimento, habilidade ou atitude adquiridos, medidos, idealmente, com comparação antes/depois. É aqui que entra o bom e velho teste, o quiz, o exercício prático. Sem medir o "antes", cuidado: o "depois" sozinho não separa o que o treinamento ensinou do que as pessoas já sabiam. Nível 3 (Comportamento): eles usam no trabalho?A pergunta que separa treinamento de entretenimento corporativo: semanas ou meses depois, o comportamento no trabalho mudou? É o nível mais negligenciado, e o mais importante. Aprender e não aplicar é o desfecho mais comum: a curva do esquecimento de Ebbinghaus corrói rápido o que não é usado, e o ambiente de trabalho (tempo, incentivos, chefia) decide se o novo comportamento sobrevive. Nível 4 (Resultados): o negócio mudou?O efeito final nos indicadores: qualidade, retenção, vendas, erros. É o nível mais difícil, porque aqui entram todos os fantasmas metodológicos de sempre: correlação vs. causa, variáveis de fundo, séries temporais. Raramente se consegue atribuição limpa; consegue-se evidência convergente. Repare no padrão: cada nível acima custa mais para medir e vale mais como evidência. É a mesma economia do cardápio de perguntas, em outra escala. O instrumental de pesquisa, nível por nível Kirkpatrick não é uma teoria de RH, é um plano de coleta. Cada nível tem uma pesquisa certa, um momento certo e uma armadilha conhecida. Nível 1 pede uma pesquisa transacional: a foto, colhida na saída, com a memória fresca. Três perguntas em escala de 5 pontos rotulada, sobre clareza, utilidade percebida e ritmo, mais uma aberta opcional. A regra de ouro: logo após, pergunte sobre percepção, não sobre eficácia. "O conteúdo foi claro?" é respondível na hora. "Você aplicará isso?" colhe intenção educada, que a literatura mostra ser péssimo preditor de comportamento. E resista à tentação do questionário longo: o formulário de reação disputa a atenção de quem quer ir embora, com o mesmo orçamento de 30 segundos do ponto de venda. Nível 2 pede linha de base. O quiz aplicado depois mede uma mistura de treinamento com bagagem prévia; o mesmo quiz aplicado antes, numa turma-piloto, separa as duas coisas. É o "antes e depois" na sua forma mais barata. Prefira situações práticas a definições; decoreba mede memória; cenário mede julgamento. Nível 3 pede pesquisa de acompanhamento 30 a 60 dias depois, com mais de uma fonte. O pacote completo: Nível 4 pede as ferramentas estatísticas de sempre. Ligar treinamento a indicador de negócio é a travessia mais minada da avaliação: a equipe treinada no pior mês melhora sozinha (regressão à média); a variação pode ser ruído ou estação. As defesas para isso são as de sempre: treinar em ondas e comparar quem já passou com quem ainda não passou, buscar dose-resposta, exigir o mecanismo plausível para o acontecimento. Todo cronograma escalonado traz de brinde um grupo de controle gratuito — os que ainda não passaram pelo treinamento podem balizar a comparação. Honestidade metodológica: aqui é aceitável evidência convergente em vez de prova. Aplicando os quatro níveis a um programa de treinamento Um exemplo de como isso se organiza na prática, nível por nível: Além do treinamento: a jornada do colaborador tem momentos da verdade Agora amplie o zoom. A experiência do cliente se mede no momento em que acontece. A jornada do colaborador é feita da mesma matéria: uma sequência de episódios (chegada, aprendizado, mudanças, saída), e cada um tem sua pesquisa certa. O RH que só faz a pesquisa de clima anual está na posição
7 perguntas essenciais para incluir em sua pesquisa de clima
O ano está acabando e nada melhor para definir as suas resoluções de ano novo que identificar pontos de melhoria, sejam eles pessoais ou organizacionais. Aprimorar o clima organizacional é uma ótima forma de fazer com que a sua equipe comece 2017 com a produtividade em alta. Um estudo conduzido na universidade de Warwick no Reino Unido recentemente descobriu que a felicidade no ambiente de trabalho é capaz de incrementar a produtividade em até 12%. A pesquisa de clima organizacional é uma excelente ferramenta para dar o primeiro passo: o diagnóstico. Pensando nisso, separamos 7 perguntas essenciais para se incluir em uma pesquisa de clima e começar 2017 com o pé direito! 1 – Por um salário igual ao que recebe, você sairia daqui para trabalhar em um concorrente? Por que? Já não é novidade que o salário por si só não resulta em felicidade. Fatores como transparência, segurança, trabalho em equipe e propósito (fazer parte de algo maior) são alguns dos pontos que fazem diferença na redução do turnover. Essa pergunta ajuda a descobrir indiretamente quais são os pontos em que a sua empresa pode estar na frente ou atrás dos demais players do mercado em questão de confiança, estabilidade, alinhamento com a visão e missão da empresa, etc. Se precisa de inspiração para superar os concorrentes, este post (em inglês) pode te ajudar! 2 – O que seus familiares acham da empresa? Mesmo se os seus colaboradores estiverem satisfeitos, isso nem sempre se reflete em casa. Pensar na opinião dos familiares ao responder esta pergunta ajuda a eliminar barreiras na hora de descrever algo que poderia ser melhor no dia a dia, o que pode gerar ótimos insights na hora de pensar em novos benefícios, como por exemplo: onde deixar o meu cachorro enquanto trabalho? Empresas como a Activision Blizzard e a Go Daddy têm políticas super amigáveis se você quiser levar o seu cãozinho para o trabalho, agradando não só os colaboradores como também os demais membros da família – até mesmo os de 4 patas! 3 – Você conhece a história da empresa? Contar uma história é muito mais impactante que pregar a missão e visão da empresa na parede. A narrativa, com linguagem mais pessoal, ajuda os colaboradores a absorver os princípios de uma organização. Elisa Schreiber dá um exemplo de como o “conto do fundador” pode ser importante para definir o que realmente importa para a cultura da empresa. Segundo ela, na empresa Hulu, existe um documento intitulado “o que define a Hulu” que foi escrito por um dos fundadores e é constantemente atualizado. Ao invés de um monte de tópicos vagos sobre o que a empresa espera ser, este documento tem frases como: “Tem um monte de coisas que não importam na Hulu. Algumas destas coisas incluem: cargos cheios de pompa, mobiliários de grife, hierarquia e jantares chiques (Quiznos e o foodtruck de Taco da esquina são o suficiente). Embora a maior parte das pessoas declare que não se importa com essas coisas, descobrimos que muitas pessoas se importam com isso sim. Não vemos problemas nisso, mas talvez signifique que a Hulu seria uma péssima escolha de trabalho para estas pessoas.” “There are a number of things that don’t matter to Hulu. Some of these things include: impressive titles, swanky office furniture, hierarchy, and nice lunches (Quizno’s and the local taco truck are our staples). Though most people profess not to care about these things, we’ve found that many people actually do care about these things. That is fine, but it also means that Hulu would be a very bad match for those same people.” Histórias como essa ajudam a nutrir a cultura corporativa a atrair novos funcionários alinhados com a expectativa da empresa. 4 – Você gosta do que faz? Perder talentos por cultivá-los em funções inadequadas é um desperdício que pode ser evitado com a ajuda desta pergunta. Abrir oportunidades de desenvolvimento dentro da própria empresa motiva os funcionários e mostra que eles têm um futuro na companhia. Já trazer alguém de fora para uma vaga aberta pode até frustrar a equipe. O autor Dan Schawbel defende que além do ganho cultural e das vantagens para o colaborador, o recrutamento interno também é benéfico em mais 3 aspectos: Economia financeira: Reposicionar um colaborador é 1,7 vezes mais barato que o externo, uma vez que se economiza em treinamento, divulgação, fees de recrutamento, viagens, etc. Além disso, candidatos externos tem um custo salarial 18% maior que contratações internas. Maior eficiência: Um estudo conduzido pela Wharton School da Universidade da Pennsylvania descobriu que candidatos externos apresentam desempenho pior nas avaliações durante os dois primeiros anos no trabalho. Agilidade: Processos seletivos externos levam mais tempo porque é preciso revisar a descrição do trabalho, divulgar a vaga e filtrar potenciais candidatos. Também é preciso verificar o background do candidato, agendar entrevistas e realizar diversas outras etapas, as quais são dispensáveis para um colaborador já conhecido. 5 – Como você avalia a comunicação entre os colaboradores e Líderes da Empresa? Uma pesquisa do McKinsey Global Institute descobriu que a produtividade aumenta de 20 a 25% em organizações com empregados mais conectados entre si. A comunicação ineficiente pode tomar várias formas, como por exemplo: Forçar o uso de uma intranet que não funciona Encher a caixa de e-mails da equipe com mensagens que poderiam ser repassadas via chat ou até mesmo em um quickmeeting. Medo de expressar suas ideias em virtude de uma cultura empresarial muito formal e com diversos graus hierárquicos A Lenovo é um excelente case de sucesso envolvendo hierarquia e comunicação. Após assumir o cargo de CEO, Yang Yuanqing desencorajou o uso de títulos formais e solicitou que os colaboradores adotassem apenas o nome no dia a dia da empresa. Nos primeiros dias, ele ficava na entrada da empresa cumprimentando todos os funcionários e insistindo que parassem de chamá-lo de senhor presidente e simplesmente o chamassem de Yang. Esta atitude simples é considerada o marco da Lenovo em deixar a sua antiga cultura

