Todo um dos tipos de pergunta de pesquisa cobra um preço em atenção: saiba o que você está comprando com ele. No Restaurante Farol O totem novo na saída do Restaurante Farol, rede com cinco lojas, estreou ambicioso: logo depois da nota, três perguntas abertas em sequência: "o que mais gostou?", "o que podemos melhorar?", "deixe sua sugestão". Caio, o gerente da loja principal, queria riqueza; o desenho prometia. O painel da primeira quinzena contou outra história: seis em cada dez clientes abandonavam na segunda pergunta aberta. Bolsa numa mão, filho na outra, fila atrás: as respostas que sobravam eram "tudo ótimo", "nada", "ok". Teclado de pressa, polegar cansado. Mari, consultora de pesquisa de satisfação, resumiu o diagnóstico diante do funil de abandono: — Cada pergunta custa segundos da atenção de quem responde, e o orçamento na saída de um mercado é de meio minuto, com sorte. Você montou um cardápio só de prato caro. Antes do cardápio, a conta Um bom questionário depende de saber redigir uma boa pergunta, mas depende tanto quanto de escolher o tipo certo, porque cada formato de pergunta é uma ferramenta com custo e benefício próprios. O custo se paga sempre do mesmo jeito: com a atenção do respondente. E no mundo do ponto de venda (cliente em pé, no caminho da saída, celular no bolso vibrando), o orçamento é de segundos. A regra que organiza tudo: quanto mais rica a resposta que o formato promete, mais atenção ele cobra. O ofício está em montar o cardápio que extrai o máximo de informação dentro do orçamento. Vale parar um parágrafo nesse custo, porque ele é fácil de subestimar. A atenção do respondente se parece com dinheiro em três pontos e difere em um quarto ponto. Como dinheiro, é finita: o que uma pergunta gasta falta para a seguinte. Como dinheiro, é cobrada na hora, use você a resposta ou não: a pergunta cujo relatório ninguém abre custa o mesmo que a pergunta que muda uma decisão, só que sem devolver nada. E, como dinheiro, tem dono: o orçamento é do cliente, que empresta por cortesia, sem dever nada e sem prometer a próxima parcela. A diferença é que esse orçamento não se repõe sozinho; ele encolhe com o mau uso. Quem abandonou um questionário comprido hoje aprende a não começar o de amanhã. A literatura chama isso de fadiga de pesquisa; na prática, é queima de base: o questionário ganancioso não encarece só a coleta desta semana, encarece todas as próximas. É com essa conta na cabeça que se lê o cardápio a seguir, do mais barato ao mais caro. Tipos de pergunta de pesquisa econômicos (1 toque, 1 segundo) 1. Escolha binária (sim/não)"Você encontrou o que procurava?" A pergunta mais barata que existe, e subestimada. Perfeita para fatos objetivos e triagem: um "não" pode disparar uma pergunta seguinte ("o que faltou?"). Limite óbvio: zero nuance. 2. Escala visual (carinhas, estrelas, corações)A avaliação de 3 ou 5 pontos em linguagem universal: atravessa idioma, idade e escolaridade, por isso é a rainha do ponto de venda. Pelo mesmo preço da binária (um toque), compra um degrau de nuance. Toda a ciência da escala Likert se aplica: simetria, ordem consistente, um item por tela. 3. Avaliação numérica (0–10, 1–5)A base do NPS e do CSAT. Barata, mas com pegadinha cultural: sem rótulos, cada pessoa inventa sua régua (para muita gente, "7 está ótimo"; para o NPS, 7 é neutro). Rotule as âncoras no mínimo. 4. Escala Likert (concordância)"O ambiente estava limpo: concordo/discordo." Mede atitudes e percepções específicas com custo baixo. Os intermediários (alguns segundos, mais riqueza) 5. Múltipla escolha (uma resposta)"Como você conheceu a loja?" Rápida e tabulável, mas repare onde está o preço: não no toque, e sim na lista. O cliente paga uma leitura por opção antes de escolher, então cada alternativa a mais é um item a mais na conta. Dois cuidados: opções mutuamente exclusivas e completas (com "outro" como válvula), e atenção ao viés de ordem: em telas, as pessoas tendem a favorecer as primeiras opções da lista (efeito de primazia, documentado por Krosnick). Quando a ordem não tem lógica natural, rotacione. 6. Caixas de seleção (múltiplas respostas)"O que motivou sua nota? (marque todos)" É o formato ideal para a pergunta-diagnóstico logo após uma avaliação negativa. Mais rica que a escolha única, um pouco mais cara em atenção. Limite prático no totem: até 6 opções visíveis sem rolagem. 7. Ranking (ordenar preferências)"Ordene do mais ao menos importante: preço, atendimento, variedade…" Informação valiosa (força trade-off, coisa que escala não faz: na escala, tudo pode ser "muito importante"). Mas é dos formatos mais caros cognitivamente: ordenar 6 itens exige 15 comparações mentais. Em autoatendimento rápido, use raramente e com poucos itens; em pesquisas mais profundas de mercado, é onde formatos avançados (como MaxDiff) entram. 8. Matriz (grade de itens × escala)Várias afirmações avaliadas na mesma escala, em tabela. É o formato que mais engana na etiqueta: parece uma pergunta só, mas cobra por linha. Eficiente no papel e no desktop; no celular e no totem é armadilha: favorece straightlining (marcar tudo igual para acabar) e abandono. Prática recomendada: desmembrar a matriz em telas de um item. Mesmo conteúdo, custo por gole. Os premium (custam caro, pagam diferente) 9. Pergunta aberta (texto livre)"O que podemos melhorar?" O formato mais rico que existe: captura o que você não sabia perguntar, a categoria de problema que nenhuma múltipla escolha previu. E o mais caro: digitar exige tempo e disposição, então a taxa de resposta despenca e quem responde é um recorte enviesado (os mais motivados). Uso profissional: sempre opcional, sempre depois das fechadas, e uma só. A dupla de ouro do diagnóstico é fechada + aberta: a nota diz quanto, o comentário diz por quê. 10. Campos de dado (e-mail, telefone, idade)Tecnicamente perguntas, na prática um contrato: o cliente entrega identificação. Custo altíssimo em confiança: cada campo desses reduz respostas e aciona deveres legais (LGPD: minimização e finalidade). Só peça o que tem uso definido, sempre
