Um banco de perguntas de satisfação é um catálogo curado, não um questionário. Escolha poucas, escolha bem. Na Academia Ritmo Às 23h11, Fábio, dono da Academia Ritmo, rede de academias com três unidades, mandou para Mari, a consultora que atende a conta, o anexo de que estava visivelmente orgulhoso: "Pesquisa nova da unidade do bairro Alto. Fiz do zero, ficou enxuta!". Nove perguntas, criadas naquela noite, na inspiração. Mari leu na manhã seguinte com o café e o catálogo aberto do lado. Das nove, sete tropeçavam em defeitos já catalogados com nome e sobrenome: uma dupla ("estrutura e atendimento"), duas induzidas ("você concorda que…"), uma escala assimétrica, duas genéricas demais para gerar conserto, e uma pedindo CPF sem finalidade. As duas restantes eram boas… e já existiam, melhor redigidas e testadas por meses, no banco de perguntas. A resposta dela coube numa linha: "Você reinventou a roda, e ela saiu quadrada em sete lugares. Vem cá que eu te mostro a prateleira." Como usar este banco de perguntas de satisfação (leia antes de copiar) Este artigo é diferente dos demais da série: é um catálogo de consulta para apoiar quem está montando ou revisando um questionário de satisfação. Use as perguntas como referência, não como um manual imutável e inegociável. A ideia é cobrir a maioria dos casos, mas nenhuma listagem simples trata a totalidade deles. Três avisos inegociáveis: Formato sugerido entre colchetes: [E] escala de satisfação/concordância · [0-10] NPS · [S/N] binária · [M] múltipla escolha/caixas · [A] aberta. A. As três âncoras (métricas centrais) B. Confiabilidade: o prometido foi cumprido C. Presteza: agilidade e disposição D. Segurança: competência e confiança E. Empatia: atenção individual F. Tangíveis: ambiente e estrutura G. Produto (varejo e alimentação) H. Esforço: fluxos de resolução (CES) I. Contexto e segmentação (usar com parcimônia; atenção à LGPD) J. Intenção e relação K. Abertas: as que descobrem o que não sabemos perguntar Três montagens de exemplo (para roubar) Fluxo varejo, 20 segundos: 1 → 3 (condicional se nota baixa, em formato M com as dimensões B–F como opções) → 24 → 47 (opcional). Fluxo alimentação, 25 segundos: 1 → 32 → 9 → 3 (M condicional) → 49 (opcional). Fluxo pós-resolução de problema, 15 segundos: 34 → 36 → 47 (opcional). Repare no padrão: uma âncora, uma ou duas específicas da decisão do momento, um diagnóstico condicional, uma aberta opcional. É o funil de perguntas em ação: do geral ao específico, do barato ao caro. De volta à Ritmo Na Ritmo, a pesquisa do bairro Alto foi remontada em vinte minutos: não escrita, escolhida. Três âncoras do catálogo, duas perguntas da dimensão que a unidade precisava vigiar (limpeza do vestiário, a dor clássica de academia), uma aberta no fim. Cada pergunta com histórico, redação testada e, de brinde, comparabilidade com as outras unidades. Fábio, convertido, virou o maior fiscal da prateleira: "pergunta nova só quando o banco não tem, e aí ela entra no banco depois de testada". A energia das 23h dele continuou existindo; só mudou de alvo: em vez de redigir perguntas na inspiração, passou a caçar decisões que estavam sem pergunta para alimentá-las. O resumo de uma frase (teste Feynman) "Um banco de perguntas é como uma farmácia: o valor não está em tomar tudo, está em saber exatamente qual remédio o caso pede." Fontes e leituras recomendadas As perguntas foram formuladas segundo as diretrizes metodológicas já referenciadas na série: BRADBURN, Norman; SUDMAN, Seymour; WANSINK, Brian. Asking Questions: The Definitive Guide to Questionnaire Design. Jossey-Bass, 2004. PARASURAMAN, A.; ZEITHAML, Valarie A.; BERRY, Leonard L. "SERVQUAL". Journal of Retailing, v. 64, 1988. (Estrutura dimensional das seções B–F.) DIXON, Matthew; FREEMAN, Karen; TOMAN, Nicholas. "Stop Trying to Delight Your Customers". Harvard Business Review, jul.–ago. 2010. (Seção H.) REICHHELD, Frederick F. "The One Number You Need to Grow". Harvard Business Review, dez. 2003. (Pergunta 2.) ICC/ESOMAR. Código Internacional (voluntariedade e minimização de dados — seção I).